Morbidez

•18 de outubro de 2012 • Deixe um comentário

Eu lembro que durante o início da minha adolescência existia um terreno baldio próximo a minha casa, por onde eu passava sempre que voltava do colégio. Um dia percebi que naquele terreno, quase no meio-fio, havia um pequeno pássaro morto sobre a grama; presumi, pela aparência do animal, que não estava morto há mais de vinte e quatro horas; por algum motivo que eu não compreendi, não pude evitar permanecer parado ali, de pé, observando a alguma distância; eu estava deslumbrado por estar vendo um cadáver – era como no funeral da minha avó, mas ninguém me repreendia por achar tão divertido! Sentindo-me um criminoso, retornei àquele mesmo local no dia seguinte, ansioso para visitar o novo amigo que eu havia feito: com o bico aberto e olhar distante, ele estava lá, da mesma maneira que eu o havia deixado. Nesse dia voltei para casa mais inspirado. Dia após dia eu parava naquele terreno abandonado para continuar o hobby que eu acabara de criar, e assim foi até que o pequeno pássaro se tornou apenas ossos enegrecidos que já não mudavam de um dia para o outro.

Sete anos depois, muita coisa está diferente na minha vida, portanto eu dificilmente me sinto como me sentia na época do ensino fundamental; isso é natural, eu não sou o mesmo, as coisas não me afetam do mesmo jeito; é por isso que uma situação tão banal para a maioria das pessoas me deixou tão alarmado: voltando da academia, bem na calçada, estava um gato preto, duro e sem vida. Seus músculos estavam enrijecidos e sua mandíbula escancarada, com as presas a amostra, quase ameaçadoras. Porém o mais perturbador eram seus olhos – frios, vermelhos, enormes, como se ele vestisse uma máscara que pudesse contar sua última sensação, a última reação que ficaria congelada por algum tempo antes de desaparecer sob a terra. Ali ele jazia, reduzido à mera sombra do que ele poderia ser um dia. Naquele momento tive exatamente as mesmas emoções de quando eu era apenas uma criança – curiosidade, fascínio, culpa, horror. E então percebi o quão mórbido e sem propósito tudo isso era, uma verdadeira estupidez! Lembrei da minha mãe tentando descobrir se seu filho possuía psicopatia enquanto ele crescia, de como as pessoas achavam meu comportamento inadequado quando eu me entretinha observando os jazigos de gente que eu nunca conheceria, e foi aí que eu entendi o significado e a beleza deste impulso macabro que eu carrego através dos anos: o único destino inevitável para todos os seres vivos é a morte, é o que nos torna iguais após uma vida formada por diferentes escolhas e caminhos. Todas aquelas pessoas que achavam esse meu comportamento estranho passam todos os dias tentando enfatizar a diferença entre nós, esforçando-se para racionalizar e manipular os laços vitais que nos unem um ao outro, formando padrões, esteriótipos, regras, preceitos, e gerando circunstâncias onde podem colocá-los em prática. Essas pessoas vivem, constantemente, criando múltiplas realidades que nos diferenciam e nos agrupam em diversas categorias; mas naquele instante eu sabia, encarando a face da morte, que no final somos um gato de mandíbula aberta e ossos negros sobre a grama; apenas uma realidade que nos limita ao mesmo status, uma categoria da qual não poderemos sair.

No meio da rua, mais adiante, havia crianças brincando e vizinhos batendo papo. Será que eles também eram capazes de desenvolver algum pensamento proveniente daquele simples animal morto? Ou apenas me achariam doentio por ser capaz? De uma coisa, ao menos, eu já sabia: minha prática distorcida possuía um sentido muito mais sublime do que seus egocêntricos costumes usuais.

Por: Gabo.

Dialética

•1 de junho de 2012 • Deixe um comentário

Tantas pessoas tentando ser certas ou erradas, simples ou complicadas, más ou muito más. Eu só quero ser qualquer coisa que não precise ser definida, numa nova perspectiva que não está no catálogo; e ainda assim preciso contar isso a alguém que eu sei que nunca vai escutar o que estou dizendo. Ninguém poderá me julgar se não conseguir me encontrar. Estar sozinho não é bom, mas não estar é muito pior; portanto, quero ser livre para me prender onde eu quiser! Alguém poderia chamar isso de fraqueza, mas a verdade é que sou forte o bastante para não precisar mostrar minha força a ninguém! Eu não odeio, porém amo o fato de que não amo.

Por: Gabo.

Positivismo

•13 de maio de 2012 • Deixe um comentário

  

Algumas pessoas foram feitas para garantir que as coisas dêem certo, outras foram feitas para impedir que tudo dê errado. É por isso que eu não me sinto culpado por não conseguir parar de imaginar diversas maneiras distintas disto se tornar uma tragédia – assim fui programado. É irônico pensar que os recursos que criei para evitar a dor vêm me fazendo sofrer.

Para ver-se livre, algumas pessoas se esforçariam para destrancar a fechadura, mas eu derrubaria a parede inteira com uma marreta – tecnicamente, ambas as práticas envolvem riscos, porém se eu demolir as coisas me certificarei de que não serei o único a estar destruído no final caso nada termine certo.

Passei muito tempo tentando aprender uma maneira menos primitiva de me sentir bem, não quero ter que lembrar como as coisas costumavam ser só para me sentir assim agora. Cada vez que encontramos luz ao chegamos no fim de um túnel, uma ponte é queimada em algum lugar. Essa não é minha noção de progresso!

Talvez minha vida tenha que ser assim, mas isso não me obriga a permitir que seja. Podemos explodir algumas bombas e partir alguns corações se quisermos, mas se preferirmos ser otimistas permaneceremos sentados enquanto o mundo nos afunda como um tijolo no oceano – positivismo não destrói as coisas, mas também não as constrói! Não lutamos para conviver com as limitações: lutamos para sobreviver apesar delas! Mesmo que o futuro sempre pareça promissor, ninguém o alcança através de um presente infrutuoso.

De uma maneira ou de outra, estou predestinado a carregar algumas cicatrizes, o que importa é conhecer quais delas sou capaz de suportar…

Por: Gabo.

Música da Indústria

•2 de maio de 2012 • Deixe um comentário

Eu gostaria de argumentar sobre algo que me incomoda às vezes, principalmente quando me deparo com alguém que sustenta certa opinião específica quanto ao assunto que abordo hoje. Refiro-me ao costume que algumas pessoas têm de criticarem negativamente canções nas quais a voz do intérprete está claramente alterada em programa de áudio. Eu, particularmente, amo música – não amo cantores, nem a indústria fonográfica ou todo o sistema de ambição e vaidade onde a música encontra espaço: apenas amo a simples possibilidade de colocar meus fones de ouvido e cantar junto com o cantor. Porém, em meio de tantas pessoas que levam esse tipo de arte mais a sério encontram-se aqueles que têm aversão ao fato de que grande parte das canções internacionais de maior sucesso, principalmente no estilo Pop, Pop/Rock, Eletrônico e afins, existe perceptível diferença entre a versão da música de estúdio e a performance dos cantores em apresentações ao vivo. O que eu mais ouço a respeito disso são comentários frustrados de algumas pessoas que afirmam que a indústria da música (ou o trabalho de seus cantores favoritos), em geral, é tão sintetizada que o que consumimos é totalmente artificial; alegam que não existe a beleza da naturalidade, pois o talento está sendo substituído pela tecnologia – a música está se tornando cada vez mais vazia, não só em seu propósito ou conteúdo, mas sua técnica, essência e significado.

  É inegável que muitos cantores utilizam recursos da tecnologia para produzirem suas músicas e que o verdadeiro talento de muitos deles não faz jus ao sucesso de suas produções, entretanto minha indignação é devido às pessoas que criticam essa realidade, por serem, na maioria das vezes, muito drásticos e impertinentes em suas opiniões a este respeito! Não acho que o bacana é buscarmos sempre algo antinatural e frívolo, porém acredito que há aspectos positivos tão consideráveis quanto os pontos negativos deste caso, e o principal deles, o que me motiva a protestar desta forma, é o fato de que as músicas que me divertem hoje não seriam as mesmas se ninguém estivesse disposto a usar sua prática em mesas e softwares de áudio para deixar belo algo que naturalmente é feio. Eu vejo isso como as roupas, a maquiagem, os imãs de geladeira e os papéis de parede no meu computador: muitas vezes fúteis ou desnecessários, mas que fazem toda a diferença quando o objetivo é simplesmente deixar algo mais bonito. Claro que eu gostaria de assistir desempenhos lindos nos palcos de shows ao vivo e acreditar que a realidade é como a escutamos no rádio, portanto não deixo de concordar com aqueles que criticam, porém eu permaneço acreditando que é interessante a percepção de que conseguimos ter tantas canções bonitas, emocionantes e bem produzidas, mesmo quando a voz dos intérpretes não é exatamente daquela maneira.

  Ninguém foi ao cinema assistir Harry Potter ou Avatar esperando ter uma impressão detalhada de como é a realidade que conhecemos, pois manter contato com aquilo que sabemos que não existe de verdade nos entretém, caso contrário estaríamos todos fadados a gostar apenas de documentários científicos, ou filmes interpretados por atores pintados de azul escalando uma tela de Chroma Key. Aquilo não é real, mas é surpreendente e divertido! Para mim, assim é a música! Artificial? Talvez, mas ainda surpreendente e divertida. Se formos capazes de declarar que gostamos de música porque nos faz bem, deveríamos parar de questionar se ela sai genuinamente da garganta de uma pessoa ou se sofre influência de uma máquina (mesmo porque, em minha opinião, o próprio tratamento do áudio deveria ser considerado arte, afinal nem todos são capazes de “fabricar” melodias emocionantes dispondo-se dos recursos de computador e vozes pouco afinadas.)

  Claro que existem aqueles que não conseguem diferenciar o real do irreal e acabam tornando-se vítimas da alienação, entretanto estou falando sobre as pessoas espertas, não as demais!

  Fico feliz que boa parte das músicas é industrializada, pois, se não fosse assim, muitas das minhas canções preferidas teriam sonoridade péssima ou nem sequer existiriam.

  A consciência de que somos capazes de manipular e distorcer o som de forma que o torne ainda melhor prova que estamos mais evoluídos que as civilizações primitivas que também se dedicavam à música.

  Eu não quero convencer ninguém a desvalorizar a espontaneidade das músicas ao vivo ou deixar de avaliar o lado feio da vulgarização da arte de fazer música, estou apenas apresentando os aspectos positivos que falei que existiam. Não podemos modificar os pontos ruins da realidade que conhecemos, mas podemos aproveitar os benefícios que ela nos traz também.

Por: Gabo

Expectativas

•9 de abril de 2012 • Deixe um comentário

Quanto tempo dura um pensamento? Acredito que dependa daquilo ao que ele se refere: na maioria das vezes permanece apenas alguns segundos em nossa mente, entretanto alguns duram períodos enormes caso sejam originados de sentimentos ou provoquem algum tipo de emoção intensa na gente. Portanto o que realmente importa é o quanto um pensamento é capaz de afetar nossas escolhas e, conseqüentemente, a vida daqueles que nos cercam.

  Eu penso que somente descobrimos aonde realmente gostaríamos de ir depois que chegamos a algum lugar. Encontrar o caminho de entrada para uma nova meta não seria tão demorado se não precisássemos primeiro descobrir a porta de saída da nossa situação atual.

  Estamos o tempo todo buscando alguma coisa, e às vezes achamos! Mas e se percebermos que a batalha pelo objetivo é mais proveitosa que alcançá-lo? – bem, acho que, se para sermos felizes precisamos de um propósito para nos impulsionar e, em contrapartida, a diversão estiver toda em apenas lutar por lutar, estamos todos fadados à insatisfação. É só fazer as contas!

  Talvez tudo se resuma à comparação entre a realidade e nossas expectativas desde o início: se algo não o satisfaz como você previu, o ideal é não se desgastar para mantê-lo, certo? Entretanto, pensando assim, chegaríamos à conclusão de que nada vale a pena, pois coisa alguma é como parece quando a desejamos!

  Então, em geral, quanto dura este pensamento? É difícil dizer com precisão, mas é evidente que dura muito pouco, levando-se em conta o quanto influenciará o seu futuro caso você o leve em consideração; isso se torna ainda mais evidente se o compararmos a outros pensamentos mais longos, banais e cotidianos. Mas é só um pensamentos, não é?

 

Por: Gabo.

Indiferença

•19 de março de 2012 • Deixe um comentário
 
Eu te agradeço,
Por me ter ensinado a não ser mesquinho,
Por me ter mostrado como é ruim afastar-se de quem nos ama.
Mesmo que para isso tenha sido necessário que você fosse o exemplo
De tudo o que eu não deveria ser.
 
Sou grato,
Pois você me provou que o belo não é sempre o certo,
Que o certo não é sempre o óbvio,
E que o óbvio pode se tornar bem contraditório.
 
Você me fez entender
Que não devemos montar armadilhas,
Pois eventualmente seremos vitimas de nós mesmos.
Também me fez ver que o conceito de perfeição é individual
E, entretanto, não há nada perfeito em ser o único a ter determinado conceito.
 
Você me apresentou o mundo como é,
Me fez perceber que ele sempre tentará me calar,
E me convencer de que não sou o bastante.
Esclareceu que alguém sempre utilizará argumentos válidos
Para desenvolver uma explicação racional
Que justifique seu próprio egoísmo e vaidade.
E me preparou para que nesses casos
Eu não anulasse meus princípios e minha personalidade.
Você me fez um guerreiro!
 
Você desenvolveu em mim o hábito de questionar,
De brigar pelo que é justo,
De não ser apenas mais um!
E foi isso que me deu a capacidade de questionar você,
E de ser aquele, diferentemente dos outros,
Que luta contra as injustiças que você criou!
 
Portanto, sempre lembrarei o que aprendi contigo,
Mas de você esquecerei assim que for possível, 
Pois você também me ensinou a só guardar o que for bom!

Por: Gabo.

Valores

•13 de março de 2012 • Deixe um comentário

Sabe qual é o problema de ter uma boa educação sobre princípios morais na infância? É que quando crescemos descobrimos que eles não valem de nada!

  Aprendemos que não devemos mentir, e percebemos, posteriormente, que precisamos de mentiras para nos protegermos; entendemos que não devemos julgar os outros, e mais tarde descobrimos que a capacidade de julgar é o que nos dá o discernimento necessário para sabermos em quem confiar e sobre como agir; somos induzidos a acreditar que devemos respeitar as diferenças, e notamos depois que devemos evidenciar as diferenças para enfatizar nossas virtudes, quando assim for conveniente. Nos é ensinado que não devemos fazer coisas ruins, mas também aprendemos a ser indiferentes quando essas coisas ruins não afetam diretamente os nossos interesses.

  Não quero dizer que sermos ensinados desde pequenos a sermos boas pessoas é algo errado, mas isso nos é passado através de palavras que de nada adiantam se não houver exemplos, exemplos bons e concretos! Além disso, nunca nos é mostrado a diferença entre o certo e o real, isso descobrimos sozinhos quando é preciso.

  Vivemos na realidade do “faça o que eu digo, não o que eu faço!” e nos frustramos quando percebemos que o mundo é feito por homens egoístas.

  O problema de ter uma boa educação sobre principios é que a fonte desses valores passa a ser corrompida devido a contradição presente nos atos daqueles que formam nossa moral. Estamos vivendo numa realidade onde a moda é falar frases belas e manter comportamentos repreensíveis.

  Ter uma base de valores morais quando se é criança talvez realmente nos ajude a formar um mundo melhor, porém, infelizmente, não nos habilita a viver no mundo que há atualmente.

Por: Gabo.