Aquela noite

Aquela noite, a lua fazia a superficie de sua pele brilhar; juro que me perguntei por um momento como algo tão dissoluto poderia ser tão imaculável, entretanto não esperei encontrar respostas, pois, caso houvesse alguma, esta já teria sido descoberta por mim da primeira vez que me questionei a respeito.

Por mais que eu tente correr, nunca pude alcançá-la – esta não é surpresa alguma, entretanto. Ela não poderia ser tão invunerável se não fosse tão mais audaz que eu. Talvez seja isso o que mantém o transe.

De qualquer maneira, ninguém poderia ser mais especial, pois nada conseguiria ter sido tão bom e fazer tão mal ao mesmo tempo.

Ela faz tudo parecer tão tolo, me faz acreditar que nada realmente importa, que nada pode ser tão ruim… até mesmo todo pesar provocado por ela mesma. E se eu ainda pudesse passar toda uma vida observando cada centímetro de seu corpo reluzindo sob aquela luz melancólica, experimentaria a espécie mais instigante de infelicidade existente.

Ela mantém cada fluxo e espasmo deslocado, sem sentido; é exatamente a mesma sensação entorpecente que se sucede entre o sono e a realidade; o prazer e a dor; a vida e a morte. E Eu me sinto tão fraco que enfreto toda a situação sem medo, como um guerreiro genuíno, e qualquer sobressalto dentro de mim não me conduz à fuga ou ao ataque: entrego-me ao acaso, pois seus tons de cinza transparecem uma neutralidade impecável.

Ela mudou toda a forma com a qual eu funciono, e meu impacto sobre ela é insignificante. Todas minhas ações irreversíveis apenas demonstram que nada precisa ser mudado para que eu esteja exatamente como eu deveria estar.

Cada atitude minha  é tão previsível quanto minha efetiva sinceridade poderia insinuar, e isso é tão confortável quanto perturbador, pois nada o que ela pudesse fazer me afetaria mais do que sua simples presença afeta.

Ela é a junção de tudo o que me repugna,  todavia, todas as rígidas regras meticulosamente formadas para proteger este núcleo concreto e lógico são invalidadas, deixando todo este sistema obreiro da coerência exposto, sujeito a contaminação magnética proveniente das raizes abrasadores que ela mantém sobre as expectativas que eu monto.

Poderiamos um dia deixar isso desvanescer? Não importa! Se realmente existir um amanhã, isso provaria que toda a história terá um final conexo; eu simplesmente não consigo sentir como se houvesse um fim, bem como é impossível encontrar a razão.

É por isso que eu me guardo a distância – o sofrimento é mais aprazível quando deixamos de desejá-lo conscientemente; passar uma vida inteira ansiando por ter o que não possui é mais saudável que dominar o mundo inteiro e não saber o que fazer com ele.

by. GabMarks

~ por GabMarks em 26 de março de 2011.

Uma resposta to “Aquela noite”

  1. adorei tudoo na narrativa, mesmo! o dom que vc tem de pintar um quadro e fazer um filme atraves da palavra é impressionante! Quando publicar um livro , tell me ;D

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