Peregrino

A melancolia das paredes desbotadas ao meu redor me provocava ímpeto de fechar os olhos afim de me esconder na escuridão da minha própria mente, e eu reprimia essa vontade, pois ao deitar-me quieta naquela grande cama de casal eu era incapaz de impedir minha atenção de focar-se no som do chuveiro elétrico vindo da porta ao lado. Observando os detalhes daquele quarto mal-arrumado, me perguntava quanto tive que me deixar levar para terminar daquela forma, entre a garrafa de uísque e um maço de cigarro pela metade.

Poucas foram as vezes em que me vi num quarto de motel – aquela, porém, era a única vez em que eu sentia nojo de mim mesma. Aquele cenário divergia de toda a pompa que eu ostentava ao esforçar-me a manifestar toda minha falsa superioridade quanto aqueles com quem convivo, entretanto eu não me importava com isso, pois quem eu realmente sou resultava da composição entre todos os pensamentos sujos e sadomasoquistas que me passavam pela cabeça: naquele lugar eu estava vulnerável, fisica e emocionalmente nua; as lembranças me obrigavam a repreender-me na esperança de preservar um pouco de razão dentro da tempestade de soluços calados na garganta; era impossivel evitar sentir-me resulsiva e violada.

Eu abraçava um dos travesseiros, aquele que mais cheirava à sua colônia, ao homem por quem deixei-me levar até o meu limite emocional; o odor era cítrico, porém acolhedor – me arrastava àquela dominação adocicada contida em seu olhar, que transparecia a mesma subjugação tentadora, o mesmo misto de júbilo e perigo.

Segurava em minha palma aberta o anel de compromisso que me dera; ele simbolizava muita coisa para um objeto tão pequeno e de pouco valor comercial, sobretudo era o ícone de promessas vazias e prazeres culpados.

Eu me perguntara tantas vezes o porque de precisar ser daquela forma! “O amor mais verdadeiro é aquele que liberta,” – era o que ele sempre dizia – “é preciso que eu vá para garantir o quanto isso é real”. Era um idealista, um peregrino; um colecionador de corações partidos, talvez! Entretanto tinha razão: meu impulso era colocar minhas raízes sobre ele, satifazer minha necessidade de afeto ao me alimentar de sua individualidade. Eu tentava sobreviver a isso potencializando a rezignação de modo que esta se tornasse equivalente em grau à toda a angústia de perdê-lo. Grandes causas requerem grandes sacrificios, eu pensava; se a maior prova do que eu sinto era permitindo que ele partisse, eu demostraria que nada poderia superar a importancia que ele tinha para mim.

Aquela seria a ultima vez que eu poderia tentar fazê-lo voltar atrás, porém percebi o quanto eu estava me deteriorando, martirizando-me por razões que estavam fora de meu controle. Eu jamais conseguiria viver o superficial, portanto precisava agir de maneira determinada!

O barulho de água lavando seu corpo continuava ecoando no banheiro, portanto aqueles preciosos minutos eram apenas meus; os utilizei para zapear a lista de contatos de seu celular, bem como o histórico de mensagens; em alguns segundos incinerei tudo aquilo que registrava, de maneira concreta, nossas ultimas semanas, como se desta forma eu desaparecesse no ar semelhante a fumaça, levando comigo todas as lembranças. Pouco antes de ouvir o chuveiro a ser desligado, eu já estava totalmente agasalhada, preparada para enfrentar o frio lá fora. Permiti-me apenas uma ultima olhada em torno, para guardar na memória os lençóis emaranhados, as manchas de humidade no teto e suas roupas ainda abandonadas sobre o chão daquele motel de estrada barato.

Momentos depois um capitulo da minha história estava encerrado. Decidi que se uma porta precisava se fechar, seria eu quem a trancaria para sempre. Naquele momento, ele devia estar encontrando sobre a cabeceira o anel que eu carregava no dedo: uma despedida seca, sem notas, sem explicações. Eu sempre acreditei que é preciso chegar ao fundo para conseguir a força pertinente a voar mais alto, porém meu único desejo era me libertar: agora, finalmente, estou livre, não do objeto de minha obssessão  – pois este, além de ainda permanecer em mim, eu não queria que se fosse –  mas do efeito causado por ele…

 by. GabMarks

~ por GabMarks em 13 de junho de 2011.

Uma resposta to “Peregrino”

  1. Muitas vezes dói, mas precisamos andar por esses caminhos tortuosos e peregrinar nas escolhas…errando e aprendendo.

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