Discriminação, ética e homofobia

Eu lembro que há alguns anos, durante uma aula de Psicologia no ensino médio, a professora havia iniciado um debate sobre a discriminação. Esse era um assunto de interesse de todos, portanto os argumentos e troca de idéias foram aparecendo naturalmente ao longo da discussão. Em determinado momento, a conversa enfatizou-se no assunto homofobia. Esse é um tema muito comum ultimamente, portanto a maior parte das opiniões  que ouvi não foram extraordinárias, exceto por uma, que me chocou bastante, principalmente por vir de alguém que eu gostava muito; a moça disse: “eu não sou preconceituosa, muito pelo contrário, tenho muitos amigos gays e gosto deles, porém um dia eu vi dois rapazes se beijando no ponto de ônibus e me senti agredida. Acho isso errado! Eles não deviam beijar em público.” Ela ainda completou dizendo que foi ensinada desde pequena, dentro da educação de sua familia e sua religião, que o correto era homens se relacionarem apenas com mulheres e que qualquer um que saisse deste padrão estava errado, portanto aqueles rapazes ao realizarem interações românticas entre si estavam ofendendo os principios morais dela.

  Antes de analisar este assunto, eu gostaria de comentar também sobre todas as vezes em que ouvi pessoas dizendo que era contra a homossexualidade ser retratada na televisão, sob a idéia de que é um insulto à familia e até mesmo à educação das crianças. Eu já escutei muitos pensamentos assim, de diversas pessoas diferentes!

  Primeiramente, não estou aqui para levantar uma bandeira contra a homofobia, ou criticar a crença dessas pessoas; meu objetivo é apenas esclarecer o que realmente são valores morais, ética e educação.

  Originalmente o significado de discriminação é “fazer distinção”, ou seja, diferenciar algo das demais coisas; apartir daí criou-se o conceito de exclusão social proveniente da discriminação entre as próprias pessoas de uma sociedade devido a classe, raça, sexualidade, religião, idade e nacionalidade. Voltando ao exemplo da menina que se manifestou durante a aula de psicologia, não era correto ela dizer que não estava sendo discriminatória, pois a partir do momento em que ela sugeriu que aqueles rapazes não se relacionassem em público e que fossem se beijar num lugar onde ninguém os visse, ela estava diferenciando aquele casal dos demais casais que poderiam agir daquela forma! Talvez o pensamento dela até fizesse algum sentido, mas é indubtável o fato de que qualquer casal heterossexual poderia estar fazendo exatamente aquilo sem que fosse julgado, enquanto o casal homossexual era considerado errado, ofensivo e desrepeitoso por fazer exatamente a mesma coisa – sustentar uma opinião como a daquela estudante é o mesmo que dizer que o direito que os heterossexuais possuem não é o mesmo que o homossexual possui. Se aquele realmente foi um ato desrespeitoso, depende da opinião de cada um, porém é visível que houve uma distinção entre individuos e isso se encaixa perfeitamente no significado de discriminação. 

Focando-se no argumento de que a estudante fora educada desde pequena a acreditar que relacionamentos homossexuais são anti-ético e incorreto, é necessário avaliarmos sua religião; claramente sua doutrina condenava a homossexualidade, portanto ela tinha todo o direito de não ser favorável a comportamentos gays, porém isso não tem absolutamente nada a ver com a ética. O fato de um grupo de pessoas não concordar com os dogmas e preceitos de sua religião não faz com que ele esteja sendo desrespeitoso com suas crenças! Relacionar-se afetivamente com alguém do mesmo sexo não contradiz a lei do nosso país, contradizia apenas os principios religiosos da menina, portanto, se analisarmos de forma lógica, perceberemos que não faz sentido ela sentir-se desrespeitada, pois ninguém pode colocar suas crenças particulares acima da lei ou da igualdade social – a ofensa é pessoal. Os rapazes estavam apenas vivendo como qualquer pessoa normal na cidade, se isso ia contra o que fora colocado na cabeça da moça quando criança, isso era um problema dela!

  O termo “ética” deriva do grego ethos (caráter), e pode ser definida como o conjunto de valores morais que equilibram a conduta do ser humano, de maneira que haja um bom funcionamento da sociedade. Já que a homossexualidade é um assunto polêmico e não existe nenhuma regra ou lei concreta fundamentando que ela seja anti-ética, a idéia que cada um faz sobre ela é individual, portanto não é possivel considerá-la ética ou anti-ética de uma maneira geral.

  Quanto aos argumentos de algumas pessoas sobre a homossexualidade na TV, eu só gostaria de comentar que (e esta já é a minha opinião) a desculpa de que isso influência na educação das crianças é apenas uma maneira de transformar a homofobia em algo hereditário. Vivemos numa sociedade que tem dificuldade para aceitar as diferentes orientações sexuais, porque fomos induzidos desde nossa infância a considerar as distinções sexuais como antinaturais, contraditórias e estranhas; basicamente, nossa cultura foi sendo formada assim desde seus primórdios . Mostrar a uma criança que pessoas do mesmo sexo se relacionam não é corromper a educação, mas reestruturá-la! Não fará que seu caráter seja danificado, muito pelo contrário, o mostrará que todos somos diferentes e que não devemos nos melindrar quando nos deparamos com isso: a homossexualidade só será vista de uma maneira natural quando todos começarmos a tratá-la como algo natural. Tapar os olhos das crianças para a realidade é apenas alienar uma pessoa que, mais tarde, não aceitará os outros porque foi acostumada desde cedo a ignorar aquilo que não compreende direito. Se pensarmos assim, menos pessoas ignorantes usarão testemunhos incoerentes em aulas de psicologia (por exemplo).

  E, no final disso tudo,  mesmo que você concorde com a opinião dessas pessoas que retratei, esse é um direito seu. Da mesma forma que eu acredito que nenhum homofóbico pode tentar tirar a possibilidade dos gays de serem quem são, acredito que ninguém pode tentar tirar dos homofóbicos o desgosto por orientações sexuais divergentes  a deles. A única idéia que mantenho é que ninguém pode sentir-se desrespeitado ao ter que lidar com as diferenças. Se você não consegue suportar indivíduo tal se comportando como os demais, isso é discriminação sim e não adianta discordar, pois o significado da palavra é arbitrário. Será muito mais digno da sua parte bater no peito e dizer “eu discrimino mesmo” do que continuar com essa atitude e tentar maquiar a situação apelando para argumentos subjetivos e inconsistentes. Se seus pais lhe ensinaram uma coisa quando criança, esse é um assunto particular: agora que você cresceu, lide com o mundo como ele realmente é, ao invés de tentar transformá-lo naquilo que disseram para você que era bonito durante a sua infância ou dentro da sua igreja.

Por: Gabo

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~ por GabMarks em 4 de março de 2012.

3 Respostas to “Discriminação, ética e homofobia”

  1. As pessoas precisam entender que o mundo está mudando, e é preciso entender o outro, e saber lidar com outras visões, culturas e pensamentos…enquanto todos ficarem nesse “eu estou certo”, ou “assim fui ensinado e assim é o correto” ou pior, “Discordo porque estou certo”, o mundo não vai avançar. É preciso saber o limite da crença pessoal, e saber a partir de onde será preciso uma mudança do posicionamento ideológico.

  2. Para o mundo avançar as pessoas precisam mudar seu posicionamento ideológico, aprender a conviver com as diferenças e saber o limite da crença pessoal.

  3. a sociedade precisa entender que ser diferente e ser normal normal…
    as pessoas precisam ter conduta,ter moral isso é fundamental para o ser humano.devemos respeitar o próximo.se ele escolheu ser homossexual,essa e a escolha dele!e nossa obrigação respeita-lo.
    as pessoas no meio social, deve aprender a conviver com as diferenças e saber as crenças do próximo.!

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