Morbidez

Eu lembro que durante o início da minha adolescência existia um terreno baldio próximo a minha casa, por onde eu passava sempre que voltava do colégio. Um dia percebi que naquele terreno, quase no meio-fio, havia um pequeno pássaro morto sobre a grama; presumi, pela aparência do animal, que não estava morto há mais de vinte e quatro horas; por algum motivo que eu não compreendi, não pude evitar permanecer parado ali, de pé, observando a alguma distância; eu estava deslumbrado por estar vendo um cadáver – era como no funeral da minha avó, mas ninguém me repreendia por achar tão divertido! Sentindo-me um criminoso, retornei àquele mesmo local no dia seguinte, ansioso para visitar o novo amigo que eu havia feito: com o bico aberto e olhar distante, ele estava lá, da mesma maneira que eu o havia deixado. Nesse dia voltei para casa mais inspirado. Dia após dia eu parava naquele terreno abandonado para continuar o hobby que eu acabara de criar, e assim foi até que o pequeno pássaro se tornou apenas ossos enegrecidos que já não mudavam de um dia para o outro.

Sete anos depois, muita coisa está diferente na minha vida, portanto eu dificilmente me sinto como me sentia na época do ensino fundamental; isso é natural, eu não sou o mesmo, as coisas não me afetam do mesmo jeito; é por isso que uma situação tão banal para a maioria das pessoas me deixou tão alarmado: voltando da academia, bem na calçada, estava um gato preto, duro e sem vida. Seus músculos estavam enrijecidos e sua mandíbula escancarada, com as presas a amostra, quase ameaçadoras. Porém o mais perturbador eram seus olhos – frios, vermelhos, enormes, como se ele vestisse uma máscara que pudesse contar sua última sensação, a última reação que ficaria congelada por algum tempo antes de desaparecer sob a terra. Ali ele jazia, reduzido à mera sombra do que ele poderia ser um dia. Naquele momento tive exatamente as mesmas emoções de quando eu era apenas uma criança – curiosidade, fascínio, culpa, horror. E então percebi o quão mórbido e sem propósito tudo isso era, uma verdadeira estupidez! Lembrei da minha mãe tentando descobrir se seu filho possuía psicopatia enquanto ele crescia, de como as pessoas achavam meu comportamento inadequado quando eu me entretinha observando os jazigos de gente que eu nunca conheceria, e foi aí que eu entendi o significado e a beleza deste impulso macabro que eu carrego através dos anos: o único destino inevitável para todos os seres vivos é a morte, é o que nos torna iguais após uma vida formada por diferentes escolhas e caminhos. Todas aquelas pessoas que achavam esse meu comportamento estranho passam todos os dias tentando enfatizar a diferença entre nós, esforçando-se para racionalizar e manipular os laços vitais que nos unem um ao outro, formando padrões, esteriótipos, regras, preceitos, e gerando circunstâncias onde podem colocá-los em prática. Essas pessoas vivem, constantemente, criando múltiplas realidades que nos diferenciam e nos agrupam em diversas categorias; mas naquele instante eu sabia, encarando a face da morte, que no final somos um gato de mandíbula aberta e ossos negros sobre a grama; apenas uma realidade que nos limita ao mesmo status, uma categoria da qual não poderemos sair.

No meio da rua, mais adiante, havia crianças brincando e vizinhos batendo papo. Será que eles também eram capazes de desenvolver algum pensamento proveniente daquele simples animal morto? Ou apenas me achariam doentio por ser capaz? De uma coisa, ao menos, eu já sabia: minha prática distorcida possuía um sentido muito mais sublime do que seus egocêntricos costumes usuais.

Por: Gabo.

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~ por GabMarks em 18 de outubro de 2012.

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